Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #10 — O Que a Gente Ensina Sem Perceber

 

Às vezes o padrão vem em forma de carinho.


Teve um dia que eu fiquei doente.


Nada grave.

Só aquele tipo de dia em que o corpo pede pausa e a gente some do mundo por um dia.


E aí meu filho perguntou:

"Pai… o que você quer comer de especial?"


E aquilo me deixou feliz.

De verdade.


Porque tinha carinho ali.

Cuidado.

Intenção boa.


Mas ao mesmo tempo…

Acendeu alguma coisa dentro de mim.


Porque eu conhecia aquela lógica.


Na minha família, comida sempre foi mais do que comida.


Quando alguém ficava triste…

Tinha doce.


Quando alguém estava mal…

Tinha um "vamos pedir alguma coisa".


Quando alguém ficava doente…

Aparecia um agrado da padaria.


E não era falta de amor.

Muito pelo contrário.


Era amor tentando cuidar.


Só que, sem perceber…

A comida acabava ocupando o centro de tudo.


Comemoração. Tristeza. Cansaço. Tédio. Doença.


Tudo passava pela comida.


E naquele momento, ouvindo meu filho perguntar o que eu queria comer…

Eu percebi uma coisa:

Os padrões não são ensinados só nas grandes coisas.


Eles aparecem nos detalhes.


Nos gestos repetidos.

Nas pequenas associações.


No jeito que a gente tenta aliviar o desconforto.


E isso mexeu comigo.


Não porque eu ache errado ter carinho através da comida.


Um pão quente num dia ruim pode ser maravilhoso.


O problema é quando a comida vira a principal resposta pra tudo.


E talvez crescer também seja isso:

Perceber quais coisas vieram com amor…

Mas que ainda pedem uma releitura.

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