Diário do Ex-Gordinho #10 — O Que a Gente Ensina Sem Perceber
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Às vezes o padrão vem em forma de carinho.
Teve um dia que eu fiquei doente.
Nada grave.
Só aquele tipo de dia em que o corpo pede pausa e a gente some do mundo por um dia.
E aí meu filho perguntou:
"Pai… o que você quer comer de especial?"
E aquilo me deixou feliz.
De verdade.
Porque tinha carinho ali.
Cuidado.
Intenção boa.
Mas ao mesmo tempo…
Acendeu alguma coisa dentro de mim.
Porque eu conhecia aquela lógica.
Na minha família, comida sempre foi mais do que comida.
Quando alguém ficava triste…
Tinha doce.
Quando alguém estava mal…
Tinha um "vamos pedir alguma coisa".
Quando alguém ficava doente…
Aparecia um agrado da padaria.
E não era falta de amor.
Muito pelo contrário.
Era amor tentando cuidar.
Só que, sem perceber…
A comida acabava ocupando o centro de tudo.
Comemoração. Tristeza. Cansaço. Tédio. Doença.
Tudo passava pela comida.
E naquele momento, ouvindo meu filho perguntar o que eu queria comer…
Eu percebi uma coisa:
Os padrões não são ensinados só nas grandes coisas.
Eles aparecem nos detalhes.
Nos gestos repetidos.
Nas pequenas associações.
No jeito que a gente tenta aliviar o desconforto.
E isso mexeu comigo.
Não porque eu ache errado ter carinho através da comida.
Um pão quente num dia ruim pode ser maravilhoso.
O problema é quando a comida vira a principal resposta pra tudo.
E talvez crescer também seja isso:
Perceber quais coisas vieram com amor…
Mas que ainda pedem uma releitura.
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