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Mostrando postagens de junho, 2026

Ocorrência nº 003 — Abordagem no Caixa

Quando o problema começa antes mesmo de chegar em casa  Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Éh… a vida é dura… mas o volante do meu monza é mais. Fui acionado hoje para uma ocorrência preventiva. Local: fila de supermercado. Por fora, tudo normal. Carrinho cheio. Consciência… nem tanto. Iniciei a abordagem no momento do caixa. Item por item. Primeiro produto: Bolacha recheada. Perguntei: "Isso aqui é necessidade ou nostalgia?" O indivíduo evitou contato visual. Segundo item: Refrigerante. Perguntei: "Vai matar a sede… ou o processo?" Silêncio. Terceiro item: Doce em promoção. Clássico. "Leve 3, pague 2." Perguntei: "E o terceiro… é pra quem?" Resposta: "Pra mim também." Caso clássico. Seguindo a vistoria: Produtos ultraprocessados em quantidade suspeita. Frutas? Poucas. Legumes? Desaparecidos. Planejamento? Nenhum indício encontrado. Observação do agente: O problema não começa em casa. Começa aqui. No carrinh...

Diário do Ex-Gordinho #12 — O Peso de Servir

Resposabilidade de nutrir alguém e a própria confusão com a comida Esses dias eu fiquei incomodado de verdade. Meus filhos estavam comendo mal. Não só na qualidade. Na quantidade também. Muito lanche. Muito "só mais um". Muito automático. E aquilo me bateu diferente. Porque, no fim das contas… A alimentação deles ainda é minha responsabilidade. E perceber que eu não estava conseguindo organizar isso direito me deixou frustrado como pai. Não pela estética. Nem por paranoia nutricional. Mas porque eu sei o quanto algumas relações com a comida começam cedo. E continuam depois. Muito depois. Ao mesmo tempo… Existe uma linha difícil de enxergar. Porque eu também não quero transformar comida em tensão. Não quero que eles cresçam com culpa. Com medo. Ou achando que comer virou um problema o tempo inteiro. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da paternidade: Entender que proteger não é controlar tudo. É orientar sem exagerar. É ensinar sem assustar. É perc...

Diário do Ex-Gordinho #11 — A Bagunça Nunca Vem Sozinha

 Às vezes o problema não está só na comida. Eu demorei muito tempo pra perceber uma coisa. A alimentação quase nunca anda sozinha. Quando ela começa a bagunçar… Normalmente outras coisas já bagunçaram antes. Às vezes é o sono. Você começa dormindo um pouco mais tarde. Depois um pouco mais. E quando percebe… Está cansado o tempo inteiro. E gente cansada negocia mais. Negocia horário, foco, comida. Outras vezes são as finanças. Você começa comprando pequenas coisas sem pensar muito. Depois parcela algo desnecessário. Depois perde o controle do que entra e do que sai. E o curioso é que a sensação é parecida. Uma desorganização silenciosa. Nada explode de uma vez. As coisas só vão ficando meio fora do lugar. A alimentação também é assim. Não é um lanche. Nem um final de semana. É o acúmulo. É o piloto automático. É o "depois eu compenso". E talvez por isso seja tão difícil separar as coisas. Porque a falta de disciplina raramente aparece em uma área só. Ela costuma caminhar ...

Diário do Ex-Gordinho #10 — O Que a Gente Ensina Sem Perceber

  Às vezes o padrão vem em forma de carinho. Teve um dia que eu fiquei doente. Nada grave. Só aquele tipo de dia em que o corpo pede pausa e a gente some do mundo por um dia. E aí meu filho perguntou: "Pai… o que você quer comer de especial?" E aquilo me deixou feliz. De verdade. Porque tinha carinho ali. Cuidado. Intenção boa. Mas ao mesmo tempo… Acendeu alguma coisa dentro de mim. Porque eu conhecia aquela lógica. Na minha família, comida sempre foi mais do que comida. Quando alguém ficava triste… Tinha doce. Quando alguém estava mal… Tinha um "vamos pedir alguma coisa". Quando alguém ficava doente… Aparecia um agrado da padaria. E não era falta de amor. Muito pelo contrário. Era amor tentando cuidar. Só que, sem perceber… A comida acabava ocupando o centro de tudo. Comemoração. Tristeza. Cansaço. Tédio. Doença. Tudo passava pela comida. E naquele momento, ouvindo meu filho perguntar o que eu queria comer… Eu percebi uma coisa: Os padrões não são ensinados só nas ...

Ocorrência nº 002 — Operação Pastelão

  Ação preventiva em saída suspeita de consulta nutricional Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Éh… a vida é dura… mas o volante do meu Monza é mais. Já estávamos monitorando esse caso há algum tempo. Nome da operação: Pastelão. O padrão era claro. O indivíduo comparecia à consulta nutricional. Concordava com tudo. "Sim, doutora." "Claro, doutora." "Essa semana vai." Comportamento exemplar. Mas havia indícios… De que a operação real começava após a consulta. Ficamos de campana. E não demorou. O indivíduo saiu da clínica. Olhar focado. Passo firme. Mas não em direção de casa. Seguimos. Destino identificado: Feira. Alvo específico: barraca de pastel. O suspeito se aproximou com familiaridade. Sem hesitação. Pedido realizado: pastel, refrigerante. Combo completo. E ali ficou claro: O plano nunca foi seguir a dieta. O plano era sobreviver à consulta… até chegar naquele momento. Abordagem realizada no ato. Perguntei: "A consulta...