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Mostrando postagens de abril, 2026

Ocorrência nº 003 — Abordagem no Caixa

Quando o problema começa antes mesmo de chegar em casa  Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Éh… a vida é dura… mas o volante do meu monza é mais. Fui acionado hoje para uma ocorrência preventiva. Local: fila de supermercado. Por fora, tudo normal. Carrinho cheio. Consciência… nem tanto. Iniciei a abordagem no momento do caixa. Item por item. Primeiro produto: Bolacha recheada. Perguntei: "Isso aqui é necessidade ou nostalgia?" O indivíduo evitou contato visual. Segundo item: Refrigerante. Perguntei: "Vai matar a sede… ou o processo?" Silêncio. Terceiro item: Doce em promoção. Clássico. "Leve 3, pague 2." Perguntei: "E o terceiro… é pra quem?" Resposta: "Pra mim também." Caso clássico. Seguindo a vistoria: Produtos ultraprocessados em quantidade suspeita. Frutas? Poucas. Legumes? Desaparecidos. Planejamento? Nenhum indício encontrado. Observação do agente: O problema não começa em casa. Começa aqui. No carrinh...

Diário do Ex-Gordinho #5 — O Peso de Recomeçar

Recomeçar cansa mais do que continuar. Tem uma coisa que sempre parece bonita,né? É o tal de recomeçar. Segunda-feira. Mês novo. Ano novo. Tudo planejado. "Agora vai." A sensação é boa. Dá até um certo alívio. Parece que recomeçar reinicia tudo — como se o passado pudesse ser apagado e a gente pudesse escrever uma história diferente do zero. Mas tem um detalhe que quase ninguém fala: Recomeçar cansa. Porque recomeçar exige energia. E normalmente… a gente tenta recomeçar justamente quando está no fundo do poço. Depois de exagerar. Depois de errar. Depois de se frustrar com a própria promessa. E aí a gente cria um plano perfeito. Academia. Dieta. Água. Foco. Disciplina. Dois dias. Às vezes três. Não porque você é fraco. Mas porque você tentou sair do zero em velocidade máxima — sem combustível nenhum. Enquanto isso… quem simplesmente continua, mesmo tropeçando, vai avançando. Devagar. Mas vai. Sem grandes anúncios. Sem aquela energia do primeiro dia. Só repetindo o básico — mes...

Ocorrência nº 001 — Uso Indevido do “Só Hoje”

  Quando a desculpa vira rotina — e a rotina vira problema Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Vida também. Fui acionado para atender uma ocorrência recorrente. O chamado dizia: “Perdi o controle.”        Já me dirloquei sem nem pensar. Chegando ao local, identifiquei que não se tratava de perda. Era negociação. O indivíduo alegava que ia comer “só hoje”. Até aí, tudo dentro da normalidade. O problema é que o “só hoje” não tinha uma data e já estava acontecendo há alguns dias seguidos. Talvez semanas. Talvez desde 2008. Na cena, foram encontrados: Restos de decisões impulsivas Embalagens abertas “sem intenção” Um plano firme de recomeçar na próxima segunda-feira O exterminador do futuro na TV E uma autoconfiança curiosamente intacta Ao ser questionado, o suspeito declarou: “Mas eu mereço.” Nesse momento, já sabíamos: caso clássico de autopiedade.  ...

Diário do Ex-Gordinho #4 — O Padrão Que Ninguém Vê

  Não é sobre um dia ruim. É sobre o que se repete em silêncio. Ninguém engorda por causa de um dia. Você não ganha peso por causa de um exagero isolado. Nem perde por causa de um dia perfeito. Então por que parece que tudo depende daquele dia? Porque é mais fácil culpar o episódio do que encarar o padrão. O episódio representa um pequeno deslize. O padrão precisa ser entendido e alterado. E isso dá muito trabalho. Mostra o quanto ainda somos imaturos e despreparados. E ninguém gosta de se sentir assim. O problema nunca foi “aquele dia”. Foi o que vinha antes dele. E principalmente…o que vinha depois. Era o: “Já que comecei…” “Agora já foi…” “Semana que vem eu volto” “Precisamos comemorar” Era a sequência. A repetição que se tornou hábito. Porque um exagero isolado não constrói nada. Mas a repetição dele…cons(des)trói tudo. E o mais perigoso é que esse padrão é silencioso. Ele não grita. Não chama atenção. Não parece urgente. Ele só ac...

Diário do Ex-Gordinho #3 — Não Foi Falta de Controle

 Foi excesso de negociação Por muito tempo eu disse pra mim mesmo: “Eu perdi o controle.” Mas isso não era verdade. Eu não perdia o controle. Eu fazia algo bem pior. Eu negociava com ele. Era sempre assim: “Só hoje.” “Só mais um pouco.” “Amanhã eu faço certo.” “Eu mereço.” E o mais curioso? Eu sempre ganhava a discussão. Porque eu sabia exatamente o que falar. Sabia os argumentos certos. Sabia o momento certo. Sabia como me convencer. Até porque não havia muita resistência. Não era falta de controle. Era habilidade. Habilidade em justificar. Habilidade em adiar. Habilidade em transformar vontade em necessidade. E enquanto eu chamava isso de “perder o controle”… Eu me livrava da responsabilidade. Porque perder o controle parece algo que acontece com você. Mas negociar… É algo que você faz de forma intencional. E se existisse uma abordagem pra esse tipo de negociação, eu já teria sido parado algumas vezes. A virada, pra mim, começou qu...