Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #12 — O Peso de Servir

Resposabilidade de nutrir alguém e a própria confusão com a comida


Esses dias eu fiquei incomodado de verdade. Meus filhos estavam comendo mal. Não só na qualidade. Na quantidade também. Muito lanche. Muito "só mais um". Muito automático. E aquilo me bateu diferente. Porque, no fim das contas… A alimentação deles ainda é minha responsabilidade. E perceber que eu não estava conseguindo organizar isso direito me deixou frustrado como pai. Não pela estética. Nem por paranoia nutricional. Mas porque eu sei o quanto algumas relações com a comida começam cedo. E continuam depois. Muito depois. Ao mesmo tempo… Existe uma linha difícil de enxergar. Porque eu também não quero transformar comida em tensão. Não quero que eles cresçam com culpa. Com medo. Ou achando que comer virou um problema o tempo inteiro. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da paternidade: Entender que proteger não é controlar tudo. É orientar sem exagerar. É ensinar sem assustar. É perceber quando o cuidado começa a virar ansiedade. E eu acho que isso mexeu tanto comigo porque comida nunca foi só comida pra mim. Eu demonstro amor cozinhando — talvez seja o meu "eu te amo" mais sincero. Quando gosto de alguém, eu penso em comida. No prato favorito. Na sobremesa preferida. No café passado na hora. No lanche inesperado. E isso é bonito. Mas também me faz pensar. Porque, às vezes, a gente entrega afeto junto com excesso sem perceber. E talvez educar meus filhos sobre alimentação também esteja me obrigando a revisitar a minha própria relação com ela. Não pra transformar a mesa num laboratório. Mas pra entender que algumas coisas passam adiante mesmo quando a intenção é só amar. E talvez o equilíbrio esteja justamente aí: Nem transformar comida no centro de tudo. Nem tirar dela o carinho que ela também pode ter. Disciplina não é castigo. É proteção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ocorrência nº 002 — Operação Pastelão

Diário do Ex-Gordinho #11 — A Bagunça Nunca Vem Sozinha

Diário do Ex-Gordinho #1 — O Ex Que Nunca Foi