Ocorrência nº 003 — Abordagem no Caixa

Quando o problema começa antes mesmo de chegar em casa  Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Éh… a vida é dura… mas o volante do meu monza é mais. Fui acionado hoje para uma ocorrência preventiva. Local: fila de supermercado. Por fora, tudo normal. Carrinho cheio. Consciência… nem tanto. Iniciei a abordagem no momento do caixa. Item por item. Primeiro produto: Bolacha recheada. Perguntei: "Isso aqui é necessidade ou nostalgia?" O indivíduo evitou contato visual. Segundo item: Refrigerante. Perguntei: "Vai matar a sede… ou o processo?" Silêncio. Terceiro item: Doce em promoção. Clássico. "Leve 3, pague 2." Perguntei: "E o terceiro… é pra quem?" Resposta: "Pra mim também." Caso clássico. Seguindo a vistoria: Produtos ultraprocessados em quantidade suspeita. Frutas? Poucas. Legumes? Desaparecidos. Planejamento? Nenhum indício encontrado. Observação do agente: O problema não começa em casa. Começa aqui. No carrinh...

Diário do Ex-Gordinho #7 — O “Só Hoje” Que Nunca Vai Embora

Ele muda de forma, mas continua aparecendo.


Eu achei que o problema era o "só hoje".

Mas não era.

O problema é que ele nunca vai embora.

Ele só muda de roupa.


Antes era assim:

"Só hoje eu vou comer isso."

Depois virou:

"Só hoje eu mereço."

Aí evoluiu:

"Só hoje não vai fazer diferença."


E quando você começa a perceber…

ele já está mais sofisticado.


"Hoje foi puxado", "Eu estou precisando", "Depois eu compenso", "Hoje pra comemorar".


Parece mais racional.

Mais adulto.

Mais aceitável.

Até mais controlável.

Mas no fundo…

é o mesmo "só hoje".


Só que melhor argumentado.


E é aí que mora o perigo.

Porque quanto mais convincente ele fica,

menos você questiona.


E quando você não questiona,

você repete.

E quando repete, vira padrão.

E quando vira padrão…

você já sabe onde isso vai dar.


O curioso é que o "só hoje" nunca aparece sozinho.

Ele sempre vem acompanhado de um plano.

"Amanhã eu começo certo", "Semana que vem eu ajusto", "Depois eu compenso".


Só que tem um detalhe:

o amanhã dele nunca chega.

Porque quando chega…

ele vira outro "só hoje".


E o ciclo continua.


Hoje eu não tento mais eliminar o "só hoje".

Eu só tento reconhecer quando ele aparece.

Porque ele sempre aparece.


E talvez o jogo não seja vencer ele.

Mas parar de obedecer automaticamente.

Pelo menos, só hoje!

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