Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #4 — O Padrão Que Ninguém Vê

 Não é sobre um dia ruim. É sobre o que se repete em silêncio.



Ninguém engorda por causa de um dia.

Você não ganha peso por causa de um exagero isolado.

Nem perde por causa de um dia perfeito.

Então por que parece que tudo depende daquele dia?

Porque é mais fácil culpar o episódio do que encarar o padrão.

O episódio representa um pequeno deslize.

O padrão precisa ser entendido e alterado.

E isso dá muito trabalho.

Mostra o quanto ainda somos imaturos e despreparados.

E ninguém gosta de se sentir assim.

O problema nunca foi “aquele dia”.

Foi o que vinha antes dele.
E principalmente…o que vinha depois.

Era o:

“Já que comecei…”
“Agora já foi…”
“Semana que vem eu volto”

“Precisamos comemorar”

Era a sequência.

A repetição que se tornou hábito.

Porque um exagero isolado não constrói nada.

Mas a repetição dele…cons(des)trói tudo.

E o mais perigoso é que esse padrão é silencioso.

Ele não grita.
Não chama atenção.
Não parece urgente.

Ele só acontece.

De novo.
E de novo.
E de novo.

Até o dia em que o resultado aparece ... e parece que foi “do nada”.

Mas não foi.

Foi construído vagarosamente.

E se alguém investigasse a fundo, encontraria um histórico bem organizado desses episódios.

Mudar não é sobre acertar um dia.

É sobre interromper um padrão.

E isso não acontece com motivação.

Acontece com percepção.

Porque quando você começa a enxergar o padrão…

Fica muito mais difícil fingir que não vê.

E talvez seja exatamente aí que a mudança começa de verdade.

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