Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #3 — Não Foi Falta de Controle

 Foi excesso de negociação



Por muito tempo eu disse pra mim mesmo:

“Eu perdi o controle.”

Mas isso não era verdade.

Eu não perdia o controle.

Eu fazia algo bem pior.

Eu negociava com ele.

Era sempre assim:

“Só hoje.”
“Só mais um pouco.”
“Amanhã eu faço certo.”
“Eu mereço.”

E o mais curioso?

Eu sempre ganhava a discussão.

Porque eu sabia exatamente o que falar.

Sabia os argumentos certos.
Sabia o momento certo.
Sabia como me convencer. Até porque não havia muita resistência.

Não era falta de controle.

Era habilidade.

Habilidade em justificar.
Habilidade em adiar.
Habilidade em transformar vontade em necessidade.

E enquanto eu chamava isso de “perder o controle”…

Eu me livrava da responsabilidade.

Porque perder o controle parece algo que acontece com você.

Mas negociar…

É algo que você faz de forma intencional.

E se existisse uma abordagem pra esse tipo de negociação, eu já teria sido parado algumas vezes.

A virada, pra mim, começou quando eu parei de falar:

“Eu perdi o controle.”

E comecei a admitir:

“Eu escolhi.”

Esse senso de responsabilização não facilita as coisas.

Não é confortável.

Mas é honesto.

E, pelo menos pra mim, foi aí que alguma coisa começou a mudar.

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