Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #13 — A Negociação

 Percebi que as minhas recaídas começaram com uma conversa.


Esses dias eu estava lendo As 48 Leis do Poder.


Em uma das passagens, o autor diz que nunca se deve negociar com um inimigo.

Ele usa uma imagem forte.

Diz que uma ameaça deixada pela metade é como uma víbora.

Ela pode parecer controlada.

Mas continua ali.

Esperando a oportunidade certa.


Fechei o livro.

E fiquei pensando.

Não na víbora.

Em mim.


Porque eu percebi que quase todas as minhas recaídas começaram exatamente assim:

Com uma negociação.


Nunca foi:

"Hoje eu vou abandonar tudo."


Foi:

"Hoje pode."

"Você merece."

"Foi uma semana difícil."

"Só essa vez."

"Só uma cerveja."

"Amanhã você compensa."


É curioso.

Porque, no momento em que essas frases aparecem...

Elas parecem razoáveis.

Quase inteligentes.

Elas nunca chegam gritando.

Chegam educadas.

Com bons argumentos.

E talvez seja exatamente por isso que são tão perigosas.


Percebi também que essas conversas raramente aparecem quando estou desorganizado.

Elas aparecem quando tudo começa a dar certo.

Quando o peso começa a baixar.

Quando o cartão de crédito finalmente respira.

Quando a rotina começa a entrar no lugar.


É como se uma parte de mim dissesse:

"Pronto. Agora já pode relaxar."


Mas a experiência tem mostrado outra coisa.

O resultado ainda não estava consolidado.

Eu apenas tinha chegado perto dele.

E foi justamente ali...

Que comecei a negociar.


Hoje, os grandes erros já não me preocupam tanto.

Eles são fáceis de enxergar.

O que realmente muda meu caminho são as pequenas conversas.

Porque nenhuma grande recaída começou grande.

Ela começou pequena.

Quase simpática.

Entrou pela porta da frente.

Sentou na mesa.

E me convenceu de que daquela vez seria diferente.


No fim...

Talvez o problema nunca tenha sido a comida.

Talvez tenha sido acreditar que eu conseguiria negociar com ela...

...e sair ganhando.


Disciplina não é castigo.

É proteção.

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