Ocorrência nº 003 — Abordagem no Caixa

Quando o problema começa antes mesmo de chegar em casa  Boa noite. Policial Roberto falando. Monza verde. Direção dura. Éh… a vida é dura… mas o volante do meu monza é mais. Fui acionado hoje para uma ocorrência preventiva. Local: fila de supermercado. Por fora, tudo normal. Carrinho cheio. Consciência… nem tanto. Iniciei a abordagem no momento do caixa. Item por item. Primeiro produto: Bolacha recheada. Perguntei: "Isso aqui é necessidade ou nostalgia?" O indivíduo evitou contato visual. Segundo item: Refrigerante. Perguntei: "Vai matar a sede… ou o processo?" Silêncio. Terceiro item: Doce em promoção. Clássico. "Leve 3, pague 2." Perguntei: "E o terceiro… é pra quem?" Resposta: "Pra mim também." Caso clássico. Seguindo a vistoria: Produtos ultraprocessados em quantidade suspeita. Frutas? Poucas. Legumes? Desaparecidos. Planejamento? Nenhum indício encontrado. Observação do agente: O problema não começa em casa. Começa aqui. No carrinh...

Diário do Ex-Gordinho #6 — O Dia em Que Eu Fui no Banheiro… Pra Voltar a Comer

 Nem sempre é fome. Às vezes é só exagero bem organizado



Teve um dia que eu fui numa churrascaria pra comemorar o casamento de um amigo.

Ambiente bom. Carne boa. Amigos reunidos.

O cenário perfeito pra tomar decisões questionáveis.

 

E eu tomei.

 

Comi bem.

Depois comi mais um pouco.

Depois veio aquele pensamento: "Agora já foi…"

 

E continuei.

 

Chegou um momento em que o corpo já tinha dado o recado com todas as letras:

"Chega." 

Mas a mente estava em modo rodízio. 

"Só mais esse corte." "Agora vem aquele melhor." "Não posso perder." "Desce mais uma pra acompanhar."

 

Até que aconteceu.

O tanque encheu.

Eu precisei ir ao banheiro. 

Até aí, tudo bem. Acontece.

 

O problema foi o que aconteceu depois.

 

Eu voltei.

E, como o espaço estava disponível… voltei a comer também. 

Como se nada tivesse acontecido.

Como se o corpo não tivesse acabado de pedir socorro em tempo real.

 

E ali ficou claro, sem que eu precisasse pensar muito:

Aquilo não era fome.

Era comportamento.

 

"Já que estou aqui…" "Já paguei mesmo…" "Agora vai até o final."

 

E o mais curioso?

Nem estava mais gostoso. 

Mas eu continuava. 

Porque parar exigia mais consciência do que simplesmente não parar.

 

Hoje eu lembro disso e acho graça.

Mas na época era só mais uma terça-feira normal.

 

E talvez esse seja o ponto mais assustador:

quando o exagero vira rotina, 

você nem percebe mais que passou do limite.

 

Acha que foi um dia no rodízio.

Mas era todo dia.

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