Diário do Ex-Gordinho #14 — O Cansaço de Viver Dividido

Tenho pensado muito sobre uma sensação que nunca consegui explicar direito. É como se existissem duas versões de mim. Uma acorda decidida. Quer dormir cedo. Quer emagrecer. Quer organizar as finanças. Quer estar mais presente. Quer viver melhor. A outra... Também mora aqui. Ela aparece no fim do dia. Quando eu digo: "Só hoje." Quando compro o que não precisava. Quando adio o que era importante. Quando troco uma caminhada por mais meia hora no sofá. Quando prometo que amanhã eu compenso. Durante muito tempo eu achei que isso era falta de força de vontade. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez o problema seja outro. Talvez seja o desgaste de viver tentando alimentar duas versões de mim ao mesmo tempo. Uma constrói. A outra desmonta. E o curioso é que nenhuma delas vence. Porque quando uma avança... A outra trata de recuperar o terreno perdido. No fim... As duas permanecem cansadas. E eu também. Percebi que esse padrão não aparece só na alimentação. Ele aparece nas finanças. N...

Diário do Ex-Gordinho #6 — O Dia em Que Eu Fui no Banheiro… Pra Voltar a Comer

 Nem sempre é fome. Às vezes é só exagero bem organizado



Teve um dia que eu fui numa churrascaria pra comemorar o casamento de um amigo.

Ambiente bom. Carne boa. Amigos reunidos.

O cenário perfeito pra tomar decisões questionáveis.

 

E eu tomei.

 

Comi bem.

Depois comi mais um pouco.

Depois veio aquele pensamento: "Agora já foi…"

 

E continuei.

 

Chegou um momento em que o corpo já tinha dado o recado com todas as letras:

"Chega." 

Mas a mente estava em modo rodízio. 

"Só mais esse corte." "Agora vem aquele melhor." "Não posso perder." "Desce mais uma pra acompanhar."

 

Até que aconteceu.

O tanque encheu.

Eu precisei ir ao banheiro. 

Até aí, tudo bem. Acontece.

 

O problema foi o que aconteceu depois.

 

Eu voltei.

E, como o espaço estava disponível… voltei a comer também. 

Como se nada tivesse acontecido.

Como se o corpo não tivesse acabado de pedir socorro em tempo real.

 

E ali ficou claro, sem que eu precisasse pensar muito:

Aquilo não era fome.

Era comportamento.

 

"Já que estou aqui…" "Já paguei mesmo…" "Agora vai até o final."

 

E o mais curioso?

Nem estava mais gostoso. 

Mas eu continuava. 

Porque parar exigia mais consciência do que simplesmente não parar.

 

Hoje eu lembro disso e acho graça.

Mas na época era só mais uma terça-feira normal.

 

E talvez esse seja o ponto mais assustador:

quando o exagero vira rotina, 

você nem percebe mais que passou do limite.

 

Acha que foi um dia no rodízio.

Mas era todo dia.

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